Impactos do Coronavírus na Agricultura Familiar: positivos ou negativos?

Com o início da pandemia, os impactos negativos gerados a sociedade e aos setores da economia são inegáveis. A chegada de um contratempo, que interrompeu de um dia para o outro feiras, escolas, restaurantes e alterou o funcionamento de distribuidoras de alimentos, gerou prejuízos e medo para os agricultores familiares. De acordo com o CEPEA, 68% dos pequenos e médios agricultores consultados, tiveram perda de renda.

Sem feiras, merendas escolares e restaurantes, que são os principais destinos de seus produtos, e enquanto grandes produtores são valorizados por supermercados, alguns pequenos viram suas vendas chegarem a zero. Além disso, famílias ficaram ainda mais preocupadas com sua segurança alimentar. Segundo relatório publicado pela FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) em abril, o número de pessoas com fome e subnutrição pode dobrar no mundo, de 130 milhões (2019) para 265 milhões este ano. Além de problemas econômicos e fitossanitários, a fragilidade de estruturação no escoamento da produção agrícola impacta toda a cadeia de abastecimento, gerando este triste cenário. Tudo isso escancarou a necessidade de reforma nas políticas públicas voltadas para os agricultores familiares, que haviam sido desestruturadas no governo atual.

Durante o governo Lula e Dilma, aconteceram recordes de assentamentos e reforma agrária. Foram 689 mil famílias assentadas pelo INCRA e 98 mil por crédito fundiário (2013-2014) e 53 milhões de hectares para reforma agrária. Além disso, programas como PRONAF, PAA, PNAE, PNATER e PRONAMP, que beneficiavam e valorizavam a agricultura familiar foram incrementados. No governo do Bolsonaro, a reforma agrária não aconteceu e as políticas que não foram cortadas, sofreram cortes de investimento e um menor número de famílias foram beneficiadas.

O PAA, por exemplo, é um programa fundamental, de capacidade dupla. Ele valoriza a agricultura familiar adquirindo seus alimentos e os escoa para famílias em insegurança alimentar e para hospitais, asilos, quartéis, escolas, restaurantes populares e outras redes. Antes da pandemia, o programa estava com investimento quase zerado. Agora, no novo Plano Safra 20/21, o Mapa acredita que o montante do PAA Doação Simultânea chegue a 70 milhões.

Outras políticas importantes para a agricultura familiar no Brasil foram valorizadas nesta crise. Para o PRONAF serão disponibilizados 33 bilhões de reais, com redução da taxa de 4,6% para 4% para investimentos. Em abril, foram liberadas linhas de crédito emergencial para pequenos e médios produtores e foram prorrogadas as amortizações dos financiamentos. O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), em alguns locais, faz a entrega de alimentos para a as famílias de estudantes, quinzenalmente. Entretanto, foram relatados por moradores de comunidades, dificuldades no acesso igualitário aos alimentos, devido a poucos e concentrados pontos de distribuição nos centros da cidade. É possível observar também a burocratização, as diferentes atuações de prefeituras e a lentidão desses programas.

Importante ressaltar que todas essas mudanças só foram possíveis por conta de propostas e pressões de organizações em prol da agricultura familiar. Há uma tendência entre a sociedade em individualizar os problemas e tentar solucioná-los separadamente. Toda essa situação de crise proporcionou uma mobilização entre agricultores, associações, cooperativas e cooperados, para conseguir mitigar e solucionar os prejuízos conjuntamente.  Houve a união também entre diversas organizações de sindicalismos, cooperativas, a CONTAG, o MST, universidades e diversos grupos para construir estratégias para o enfrentamento do contexto e propor alternativas para o governo federal. A ANA (Articulação Nacional de Agroecologia) teve o apoio de 877 organizações para o envio das propostas de retomada do PAA para o governo federal.

Os obstáculos impulsionaram não só a união entre os agricultores e organizações, mas também a inovação de seus modos de gestão e comercialização. A gestão da agricultura familiar tem um ponto fraco, que é a dificuldade de estruturação na sua organização, por conta de sua pulverização nos municípios. Este é um momento propício para um olhar mais delicado para as finanças e para estruturação contábil.

Além da valorização do circuito curto de comercialização, novas propostas podem ser visualizadas, como deliverys, feiras drive thru e o uso da tecnologia para comunicação e vendas. Porém, atenta-se que o uso da tecnologia ainda é inviabilizado para grande parte dos pequenos produtores, devido ao custo e dificuldades em seu uso. Surgiram outras iniciativas de comércio, como a que foi adotada por uma cooperativa no Mato Grosso, que visou também diminuir o desperdício de alimentos. Os produtos que sobraram dos agricultores foram unidos e colocados à venda, com posterior divisão do lucro entre todos.

Créditos: Sãocarlosagora.com.br
Feira da agricultura familiar realizada pelo sistema drive thru na cidade de São Carlos-SP.

Venceslau Donizeti de Souza, presidente da COOPERACRA, de Americana, em SP, relatou em entrevista ao Jornal Pires Rural de Limeira publicado em 7 de junho, que depois da surpresa e incertezas “começamos articular junto as secretarias de educação e fomentar a ideia das cestas verdes. Também passando informações para todos da cooperativa, simultaneamente. Foi assim que conseguimos fornecer nossa produção para a prefeitura de Itirapina, SP, através do PNAE para as famílias assistidas pelo CadÚnico (cadastro que identifica as famílias de baixa renda)”. A primeira entrega foi de 400kg, e a segunda de uma tonelada. Eles também estão fazendo cestas de alimentos para a prefeitura de Nova Odessa, destinadas a famílias carentes. Venceslau afirma que a produção dessas cestas triplicou.

Ainda assim, A COOPERACRA investiu nas plataformas digitais: “temos uma plataforma on-line para vendas diretas ao consumidor, com delivery. Rapidamente montamos a plataforma e, com quarenta dias, já estávamos com cinco núcleos de venda no delivery. Recomeçamos, aprendendo do zero. Estamos com entrega em Americana, Nova Odessa, Santa Bárbara D’Oeste e Campinas. Os grupos parceiros dessas vendas on-line são Cooperacra, grupo TERRA da Esalq, uma startup chamada Nutrire, a nutricionista Camila e o grupo Livres-Rede de Produtos do Bem de Campinas. As entregas são duas vezes por semana, segunda e quinta, e já temos uma proposta para atender a cidade de Piracicaba”. Por fim, Venceslau destaca que a cooperativa está  trabalhando cada vez mais, em parceria, para fortalecer a agricultura familiar e o cooperativismo.

Plataformas digitais para divulgação de produtos da COOPERACRA
Via: Facebook e Instagram, respectivamente.

A pandemia está sendo um momento de uniões e reinvenções para todos que estão envolvidos nessa esfera da agricultura. É uma oportunidade de fortalecer e qualificar o modo de relação em sociedade, em organização, com o governo e associados. Com isso, a solução de problemas e a luta pelas defesas e reformas das políticas públicas se tornam mais responsivas, baseando-se na unificação e em provocações aos órgãos públicos. As mudanças nessas políticas, movimentos e inovações no comércio, devem perdurar pós pandemia (se as memórias não forem de curto prazo). Tudo isso para a valorização e progresso cada vez maior da agricultura familiar, que está presente em maior parte dos alimentos que estão nas nossas mesas.

Nesse panorama geral, conclui-se que a situação gerou prejuízos aos agricultores e aos estudantes, mas que numa visão otimista, ela pode mudar a realidade anterior, pensando que foram tomadas medidas nesse sentido. A análise desse cenário deve manter-se no futuro, pós pandemia, onde será possível mensurar e concluir sobre os impactos reais do Coronavírus na agricultura familiar e saber, se as memórias serão ou não de curto prazo.

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Luana Rett Paccola

Bibliografia:

ROCHA, Camila. Coma a pandemia causa um estrago na agricultura familiar. Nexo Jornal, 2020.Disponível em: <https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/05/11/Como-a-pandemia-causa-um-estrago-na-agricultura-familiar>. Acesso em: 01 set.2020.

FNDE repassa 400 milhões para alimentação escolar. Gov.br, 07 jul.2020. Disponível em: <https://www.gov.br/pt-br/noticias/educacao-e-pesquisa/2020/07/fnde-repassa-400-milhoes-para-alimentacao-escolar>. Acesso em: 01 set.2020.

MOVIMENTOS sociais apresentam solução emergencial de 1 bi para alimentar população vulnerável. Agroecologia.org, 08 abr.2020. Disponível em:
<https://agroecologia.org.br/2020/04/08/paa-programa-de-aquisicao-de-alimentos-da-agricultura-familiar-comida-saudavel-para-o-povo/>. Acesso em: 01 set.2020.

MACHADO, Bruno; SOUZA, Carlos. Se faltar comida, a culpa é do Coronavírus? Revista Forum, 2020.Disponível em: <https://revistaforum.com.br/debates/se-faltar-comida-a-culpa-e-do-coronavirus-por-bruno-jose-machado-e-carlos-eduardo-souza-leite/>. Acesso em 03 set.2020.

GALVANI, Giovanna, 2020. Agricultores familiares enfrentam dificuldades para distribuir seus alimentos. Carta Capital, 2020. Disponível em: <https://www.cartacapital.com.br/saude/agricultores-familiares-enfrentam-dificuldades-para-distribuir-seus-alimentos/>. Acesso em: 25 ago.2020.

A RESILIÊNCIA de uma cooperativa agrícola em meio a pandemia. Jornal Pires Rural-Edição 241, 2020. Disponível em: <http://www.dospires.com.br/jornalpiresrural/cooperativa-em-meio-a-pandemia/?fbclid=IwAR08d9LBLVE1j5L1GQ_chc-D7L03uuMZtoCyrj8U9d8x4kk6ukZqTMUTkg0>. Acesso em: 03 set. 2020.

PLANO SAFRA 20/21 e a agricultura familiar: entenda as mudanças neste ciclo. Canal Rural, 18 jun.2020. Disponível em: <https://www.canalrural.com.br/noticias/agricultura/plano-safra-20-21-e-agricultura-familiar-entenda-as-mudancas-neste-ciclo/>. Acesso em: 04 set.2020.

HOJE é dia de feira drive-thru no Parque Kartódromo. Jornal São Carlos Agora, 04 jul.2020. Disponível em: <https://www.saocarlosagora.com.br/cidade/hoje-e-dia-de-feira-drive-thru-no-parque-do-kartodromo/127406/>.  Acesso em: 01 set.2020.

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